Ninguém transa mais nesse casamento? Essa poderia ser a pergunta-chave do filme “O Convite”, dirigido por Olivia Wilde e atuado por ela e Seth Rogen, Penélope Cruz e Edward Norton. Mas quando ela emerge (e raramente isso acontece assim sem claquete), é como ponta do iceberg de uma série de outros questionamentos (ou silencionamentos) que marcam a trajetória de duas pessoas que estão envelhecendo juntas. E esse é o verdadeiro convite feito pelo filme: mergulhar nas profundezas daquilo que idealizamos ser e somos conosco e com o outro e como o sexo (ou a falta dele) é um artifício poderoso para se pegar a crise pelo pé e virar (ou não) o jogo.

Muitas das entrevistas que conduzi durante minha pesquisa de doutorado passaram por essas zonas abissais. Eu tive o privilégio de entrevistar casais heterossexuais nos seus 50, 60 e 70 anos a partir da perspectiva de cada uma de suas partes. Meu interesse pela intimidade nessa segunda fase da vida veio já no meio dessa etnografia de 16 meses conduzida em São Paulo, quando, durante uma atividade de campo, um homem 70+ se aproximou por trás e falou no meu ouvido “Eu tenho fantasias com você”. Daí veio o meu desejo de explorar os lugares onde eram postos os desejos na velhice.

 

Na minha pesquisa de campo, o sexo entre casais heterossexuais, todos casados há mais de 20 anos, passava por desafios e ajustes.

 

  1. Duas rotinas distintas:

    Mulheres casadas que se aposentaram e que vivem rotinas distintas dos maridos que se recusam a parar de trabalhar. Elas negociam uma intensa vida social e viagens com a rotina doméstica e o papel de cuidadoras – que sempre desempenhavam. Nesses casos, não há perda de desejo em geral, mas perda de desejo pelos maridos. Esse é o caso de Lourdes (64 anos) que busca a autorrealização fora de casa. Lourdes descreve abertamente o marido como “muito chato”. Para evitar conflitos e cobranças, ela utiliza o smartphone como uma ferramenta de vigilância e performance: ela monitora a geolocalização dele e, quando percebe que ele está chegando do trabalho, corre para vestir um pijama e fingir que passou a tarde em casa, escondendo sua vida social ativa nos “bastidores”. No âmbito da intimidade, há um desencontro de expectativas. Lourdes relata desconforto durante o sexo devido à secura vaginal associada por ela à menopausa. Ela afirma que não sente mais desejo pelo marido e que ele reclama de sua passividade, chegando a dizer que ela “parece uma freira”. Embora não tenha mais interesse sexual no marido, Lourdes não abre mão de ser desejada pelo outro. Ela investe em rotinas de beleza e comemora com orgulho: “Eu ainda tenho presença”. Para ela, o jogo da sedução e a competição pela atenção masculina no espaço social funcionam como um capital para resistir à invisibilidade que a sociedade impõe à mulher idosa.

  2. O pontinho no nariz:

    Roland Barthes traz essa metáfora para descrever o momento em que um ato, por vezes ínfimo, devolve o ser amado à posição de medíocre. Na minha pesquisa, o “pontinho no nariz” era muitas vezes desencadeado pela aposentadoria ou decorrente de demissões associadas ao idadismo. A “perda do crachá” é vivenciada pelos homens como perda de posição social e crise identitária, além de impactar o padrão financeiro do casal. Por conta da postura assumida por cada um, há casos em que a mulher perde a admiração, e consequentemente o desejo, pelo marido – que já atravessa uma crise de autoestima. Esse é o caso de Magali (72 anos). Ao contrário do marido, ela começou uma segunda carreira como cuidadora de pessoas idosas após sua aposentadoria. Assim ela conseguiu manter seu padrão de vida de antes, quando era secretária executiva. Mas ela considera que o marido se acomodou (ele não teve a desenvoltura dela para se adaptar a uma segunda profissão depois de ter pedido para se aposentar por experimentar situações idadistas em sua empresa – um quadro recorrente entre os homens da minha pesquisa) e prefere ter prazeres em separado, como viajar com as amigas. Um marco em sua entrevista foi que ela tinha o Tinder instalado no seu celular, apesar da conta não estar configurada. “Eu baixei para achar alguém para a minha filha”, ela explicou.

  3. Recalibrando desejos e expectativas sociais:

    Alguns casais na maturidade recalibram seus desejos e identidades, substituindo a busca pela performance da juventude por novas formas de prazer e parceria. Esse é o caso de Bia (55 anos) e Paulo (56 anos). Ambos reconhecem que, com a menopausa e o envelhecimento, o desejo sexual diminuiu e as relações ficaram menos frequentes. No entanto, em vez de tentarem “consertar” a libido, eles investem na qualidade dos momentos juntos, no afeto e na amizade. Ao mesmo tempo, eles experimentam um redirecionamento do prazer: Bia para sua nova carreira e Paulo para seu antigo hobbie que tem se tornado cada vez mais sua nova ocupação. Eles consideram o casamento gratificante pela parceria, aceitam o declínio sexual como algo natural da idade. Eles ainda transam e celebram datas especiais, mas sem obrigações ou cobranças.

 

Simplesmente aposentar-se da vida sexual também foi uma das experiências vivenciadas por algumas mulheres da minha pesquisa. O conceito de “Aposentadoria Sexual” é da antropóloga Mirian Goldenberg.  Na minha etnografia, a aposentadoria sexual era desencadeada de diversas maneiras:

 

1. Efeito colateral:

Mulheres que se separaram com filhas pequenas evitavam relacionamentos que pudessem colocar as filhas em risco – e o medo aqui era de abuso sexual (100% das mulheres entrevistadas com esse perfil não se casaram novamente). Algumas delas voltaram para a casa dos pais e logo acumularam o cuidado com eles, com a casa, com os filhos, além da própria atividade remunerada – deixando relacionamentos e vida sexual em segundo plano. Esse era o caso de Cris (63 anos). Um fato marcante em sua entrevista é que ela se declarava “aposentada” no sexo. Mas quando eu pedi para ver seu celular (isso era a última etapa da entrevista), estava aberta a aba do Google “Como mulheres podem fazer sexo por aplicativo?”.

 

2. Emancipação:
Mulheres que vivenciavam a perda da libido não como uma falta, mas como um ganho de autonomia e liberdade em relação às demandas masculinas. Esse é o caso de Gisele (60 anos). Após ter tido uma vida sexual intensa e livre após o divórcio, ela viu sua libido desaparecer com a menopausa. Gisele transformou a ausência de apetite sexual em um “passe livre” para a emancipação, dedicando seu tempo exclusivamente a si mesma e à sua carreira, sem a necessidade de negociar prazeres ou desejos com um parceiro. As demandas sexuais foram substituídas por uma rotina de masturbação entendida como um “hábito saudável” de manutenção do corpo funcional, e não necessariamente como resposta ao desejo.

 

3. Indiferença Histórica:
Mulheres que vivenciam o declínio da libido e “aposentadoria sexual” com naturalidade porque o sexo nunca ocupou um lugar central no projeto de vida ou na identidade da mulher. Esse é o caso de Sônia (59 anos). Ela relata que a diminuição do desejo durante a menopausa não foi um problema, pois ela nunca se considerou uma pessoa “apaixonada” ou focada em relacionamentos amorosos. Por isso ela se percebe como a mesma pessoa de sempre. Para mulheres com este perfil, a menopausa é apenas mais um marco do ciclo de vida, sendo a libido algo que simplesmente “esfriou” sem gerar crises de identidade. Interessante sobre Sônia é que ela passou a adotar alguns procedimentos de segurança, principalmente à noite. É dela a fala: “Sou um pouco medrosa. Eu sou bem Cinderela. Deu meia-noite eu quero estar em casa. E não é um medo injustificado. A gente sabe o que acontece a qualquer hora do dia. Mas à noite, você ser pega na rua… você tem o abuso sexual. As pessoas brincam que a mulher mais velha quer que o homem pegue, mas não é bem assim”

Talvez um dos pontos que mais me surpreenderam durante minha etnografia, que investigou diretamente os efeitos dos smartphones para o envelhecimento, foi perceber como os participantes da minha pesquisa eram inseridos nas dinâmicas dos Amores Líquidos.

 

  1. Amores Líquidos
    A entrada dos 50+ na dinâmica dos relacionamentos digitais as insere na lógica do “amor líquido” de Zygmunt Bauman, onde os indivíduos se tornam mercadorias em uma vitrine virtual voltada para o consumo efêmero e o prazer imediato. Essa vitrine exige que a pessoa gerencie sua imagem como um “produto” que precisa se destacar da concorrência. No entanto, surge um descompasso nos algoritmos: como as pessoas costumam se sentir mais jovens do que são, elas tendem a buscar parceiros com aparência jovial e aparentando vigor físico, mas os aplicativos frequentemente as confinam a faixas etárias que elas mesmas consideram “velhas demais”. Nesses encontros e desencontros, as mulheres reclamam que os homens mais velhos só procuram as mais novas ou não querem compromisso. Apesar disso, um participante me confidenciou: sobre sua experiência com apps de relacionamento “Tudo o que elas reclamam nos homens, elas fazem igual. Eu fiquei apavorado. … achei tudo muito agressivo. Acho que fiquei realmente assustado com algumas das mulheres que conheci”

    2. A performance masculina em xeque
    Enquanto as mulheres buscam manter a visibilidade e o status de objeto desejante, os homens enfrentam a pressão de uma masculinidade historicamente ancorada na virilidade e na performance sexual (ereção e penetração). O desafio é que a “perda do crachá” na aposentadoria ou no desemprego já fragiliza a identidade do homem como provedor. Para completar, alguns vivenciam impotência também associada a doenças crônicas. Esse é o caso de Felipe (63 anos), que ajusta o discurso para criar uma nova abordagem com as mulheres, focada na parceria e no companheirismo, argumentando que “só um tolo pensaria que a relação entre homem e mulher é apenas sexo”.
    3. A vovó faz e gosta

    Essa foi a resposta de Luisa (72 anos) quando a neta lhe perguntou se ela fazia sexo. Luiza põe por terra o estereótipo da avó assexuada. Exuberante e sensualmente conectada (isso daria um capítulo à parte), ela é tão aberta sobre sua sexualidade que se tornou uma espécie de consultora em grupos de WhatsApp, onde incentiva outras mulheres a buscarem o prazer. Para ela, “gostar de sexo” é um pilar de sua identidade de mulher emancipada. Para vencer o idadismo dos algoritmos, ela utiliza a tática de declarar 66 anos em seu perfil; caso contrário, o sistema só lhe mostraria homens sem o vigor físico que ela procura para seus encontros. Mas como outras mulheres que se mantém ativas, o desejo é também ter uma companhia. Uma outra mulher viúva (72 anos) reclamou: “Bem, eu não encontrei ninguém que me levasse para um clube, para um jantar dançante, né? Não encontrei ninguém assim. O que eu encontrei foram pessoas querendo vir aqui em casa, transar e ir embora, sabe?”

Todo mundo quer um final feliz

Pude observar na minha pesquisa exemplos de homens que ficam perseguindo a ereção e performance dos tempos da juventude, enquanto as mulheres vão descobrindo seus corpos e outras áreas de prazer. Por vezes, um par se forma e as mulheres assumem um papel fundamental em “navegar” seus parceiros por esses caminhos. É de novo o caso de Luisa (72 anos) – talvez o mais emblemático até aqui. Cansada do aplicativo, ela não teve dificuldade quando seu então pretendente utilizou a impotência como desculpa para não iniciar um relacionamento. Ela o conduziu por “novas formas de excitação” e segue com ele como seu companheiro desde então.

E aqui uma satisfação íntima da pesquisadora: ouvir no filme “O Convite” que a grande mentora dos encontros e das experimentações entre os casais que permeiam a trama era uma mulher mais velha, a ponto da menção ser acompanhada pela tradução forçada “panela velha é que faz comida boa”. De certa forma, pude observar isso em algumas mulheres. Depois dos desafios da invisibilidade feminina na velhice, depois da menopausa, depois da concorrência líquida com a juventude, elas surgem potentes… e gozadoras.

 

Bibliografia utilizada na minha pesquisa sobre os temas abordados nesse texto:

  • BARTHES, Roland. Fragmentos de um discurso amoroso. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1994.
  • BAUMAN, Zygmunt. Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004.
  • DEBERT, Guita Grin. Aging, gender and sexuality in Brazilian society. Anthropology & Aging Quarterly, v. 34, n. 4, p. 238-245, 2014.
  • GOLDENBERG, Miriam. A bela velhice. Rio de Janeiro: Record, 2013.
  • GOLDENBERG, Miriam (org.). Corpo, envelhecimento e felicidade. 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2014.
  • GRIFFIN, S. et al. “Keeping your body and mind active”: an ethnographic study of aspirations for healthy ageing. BMJ Open, v. 6, n. 1, 2016.
  • ROZENDO, A. da S.; ALVES, J. M. Sexualidade na terceira idade: tabus e realidade. Revista Kairós Gerontologia, v. 18, n. 3, p. 95-107, 2015.

Referências sobre Menopausa e Saúde da Mulher

  • ADLER, S. R. et al. Conceptualizing menopause and midlife: Chinese American and Chinese women in the US. Maturitas, v. 35, n. 1, p. 11-23, 2000.
  • BRASIL. Ministério da Saúde. Manual de atenção à mulher no climatério/menopausa. Brasília: Editora do Ministério da Saúde, 2008.
  • COSTA, G. M. C.; GUALDA, D. M. R. Conhecimento e significado cultural da menopausa para um grupo de mulheres. Revista da Escola de Enfermagem da USP, v. 42, n. 1, p. 81-89, 2008.
  • LOCK, Margaret. Menopause in cultural context. Experimental Gerontology, v. 29, n. 3-4, p. 307-317, 1994.
  • SIEVERT, Lynnette Leidy. Menopause: a biocultural perspective. New Brunswick: Rutgers University Press, 2006.
  • TRENCH, B.; ROSA, T. E. da C. Menopausa, hormônios, envelhecimento: discursos de mulheres que vivem em um bairro na periferia da cidade de São Paulo. Revista Brasileira de Saúde Materno Infantil, v. 8, n. 2, p. 207-216, 2008.
  • USSHER, Jane M.; PERZ, Janette; PARTON, Crystal. Sex and the menopausal woman: a critical review and analysis. Feminism & Psychology, v. 25, n. 4, p. 449-468, 2015.
  • WILSON, Robert A. Feminine forever. New York: M. Evans, 1966.
  • WRITING GROUP FOR THE WOMEN’S HEALTH INITIATIVE INVESTIGATORS. Risks and benefits of estrogen plus progestin in healthy postmenopausal women: principal results from the Women’s Health Initiative randomized controlled trial. JAMA, v. 288, n. 3, p. 321-333, 2002.

Referências Masculinidades

  • AZIZE, Rogério Lopes. A “evolução da saúde masculina”: virilidade e fragilidade no marketing da disfunção erétil e da andropausa. In: GOLDENBERG, M. (org.). Corpo, envelhecimento e felicidade. 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2014. p. 181-198.
  • BRIGEIRO, M.; MAKSUD, I. Aparição do Viagra na cena pública brasileira: discursos sobre corpo, gênero e sexualidade na mídia. Revista Estudos Feministas, v. 17, n. 1, p. 71-88, 2009.
  • FARO, L. et al. Homem com “H”: ideais de masculinidade (re)construídos no marketing farmacêutico. Cadernos Pagu, n. 40, p. 287-321, 2013.
  • WENTZELL, Emily. Aging respectably by rejecting medicalization: Mexican men’s reasons for not using erectile dysfunction drugs. Medical Anthropology Quarterly, v. 27, n. 1, p. 3-22, 2013.
  • WENTZELL, Emily. Dysfunction as successful aging in Mexico. In: LAMB, Sarah (ed.). Successful aging as a contemporary obsession: global perspectives. New Brunswick: Rutgers University Press, 2017. p. 68-82.

Para ler mais sobre a minha pesquisa:

  • DUQUE, Marília. Homo resiliens: moralidades e resistências da velhice mediada por smartphones em São Paulo. 2021. 397 f. Tese (Doutorado em Comunicação e Práticas de Consumo) – Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), São Paulo, 2021.
  • DUQUE, Marília. Ageing with smartphones in urban Brazil: a work in progress. London: UCL Press, 2022.
  • DUQUE, Marília. Woman, interrupted. Anthropology of Smartphones and Smart Ageing Blog, 9 jan. 2020. Disponível em: https://blogs.ucl.ac.uk/assa/2020/01/09/woman-interrupted/.