“Eu tô te explicando pra te confundir / Eu tô te confundindo pra te esclarecer”. Os versos de Tom Zé bem poderiam ser percurso metodológico para navegar “O Último Azul”, de Gabriel Mascaro. Foi assim para mim. Assisti ao filme duas vezes no cinema e foi difícil ignorar, na ficção, os reflexos da realidade de se envelhecer em um país onde a contribuição das pessoas idosas é invisibilizada e atravessada por uma cultura jovem-cêntrica enquanto seus direitos e liberdades são diminuídos. Mais difícil ainda foi ignorar as tantas vezes em que as falas das personagens se confundiram com as falas das pessoas idosas que estudei durante a etnografia de 16 meses que baseou minha tese de doutorado.
Daí a vontade de encerrar o ano com esse texto, que passa longe de toda riqueza do filme. Ainda assim, aqui tem spoilers a perder de vista. Então vire seu leme para longe daqui se ainda não tiver assistido ao filme.
Antes de embarcarmos
Em “O Último Azul”, o Brasil é um país onde “O Futuro é Para Todos” – o que significa dizer para todas as pessoas em idade produtiva. Há um corte cronológico entre aqueles produtivos e aqueles que passariam a demandar cuidado. Daí que aos 75 anos os brasileiros são exilados para que as gerações mais novas possam trabalhar sem outras distrações e demandas. A retórica do exílio compulsório é de reconhecimento “por todos os anos dedicados ao Brasil” com “uma compensação financeira” pela transferência da guarda para as famílias que normalizam o despache de seus idosos para a colônia sob administração do Estado. Ainda que a propaganda cuide de vender o paradeiro como paradisíaco, nada se sabe sobre como se vive lá.
O filme é a história da resistência (teimosia) de Tereza, que resolve que quer realizar um antigo querer antes de ser enviada para colônia. Ironicamente, seu sonho é andar de avião (daí a belíssima cena de abertura na câmara frigorífica) enquanto a propaganda estatal justifica o exílio para progresso da pátria com a máxima “É tempo de decolar”.
1. “Não Tem Mais Essa de Querer Não”
A frase é do encarregado do matadouro de jacarés onde Tereza trabalha no momento em que ele a dispensa com seu último pagamento. Não importa que ela queira continuar empregada e que questione o que vai fazer em casa sem trabalho. A ordem do governo é que ela descanse. Mas velho tem querer? Essa era uma reclamação constante entre os participantes da minha pesquisa. Toda liberdade estava condicionada à autonomia e às constantes negociações com os limites impostos pela família. Daí a preocupação com a saúde e o silenciamento dos declínios naturais e de possíveis limitações do envelhecimento. Estes eram passíveis de intervenção, mas não só.
“Você está muito velho/velha pra isso”. As limitações impostas pelo idadismo também eram queixa constante. Uma das participantes da minha pesquisa retrucava a filha que questionava a vaidade na sua idade: “eu posso, eu quero, eu vou pagar”. Além disso, participantes compartilharam que se aposentaram sem desejar por se sentirem hostilizados pelos colegas mais jovens ou por serem vistos como incapazes. Outros diziam viver no limbo: muitos velhos para o mercado, novos demais para a aposentadoria.
O querer também está implicado nas múltiplas velhices e pode ser cerceado quando a velhice passa a ser prescrição na eleição de um único jeito correto de se envelhecer. Mais uma vez aqui, os participantes da minha pesquisa escolhiam o silenciamento como tática. Escondiam hábitos desviantes enquanto usavam as redes sociais para reproduzir o discurso do saudável. “Velho como feijoada, mas tira foto da gelatina”, resumiu bem um deles.
Para efeito baba azul, leia: 1) Livro da juíza Andréa Pachá, “Velhos são os Outros”; 2) Artigo sobre reproduções do discurso do saudável por pessoas idosas de Paul Higgs (amo) e colegas: “Not just old and sick – the ‘will to health’ in later life”; 3) Artigo sobre a resistência em se colocar sob administração, de Lassen e Jespersen: “Getting Old and Keeping Going: The Motivation Technologies of Active Aging in Denmark”; 4) Artigo meu sobre performances de identidade do saudável na velhice: “Performing healthy ageing through images: From broadcasting to silence”
2. “Aqui o Sistema Está Dizendo que Ela tem Sua Guarda”
A fala é do atendente da agência de turismo, primeiro destino de Tereza na sua tentativa de realizar seu desejo de voar de avião antes de ir para a colônia. O sistema, que passa automaticamente a guarda das pessoas que completam 75 anos aos filhos, reproduz, em âmbito governamental, o limite entre cuidado e vigilância também vivenciado nas famílias. No filme, qualquer movimento dos cabeças-brancas está condicionado à apresentação de documentos, identificação e autorização do filho tutor. Isso sem falar na figura do “fiscal popular” que tem como função a delação e do emblemático “cata-velho”, uma espécie de viatura que transporta velhos transgressores.
Em um primeiro momento, mesmo com total exclusão da agência individual dos velhos, a trama apresenta uma corresponsabilização maior entre família e estado. Mas a ida compulsória para a colônia exclui a possibilidade da demanda por cuidado não ser só um inconveniente como vem sendo construído em algumas culturas e na própria narrativa. “Devolvam meu avô” pichado no muro e a casa interditada após a apreensão de um velho escondido pela família são avessos do cuidado como fardo.
Longe da ficção, em âmbito privado, observei diversas negociações no limiar entre cuidado e vigilância. Uma filha rastrava o celular da mãe que morava sozinha sem seu consentimento. Outra idosa obedecia à rotina de informar seus deslocamentos via WhatsApp. Ao mesmo tempo, esse tipo de vigilância era cuidado e viabilizava que muitas mulheres idosas pudessem permanecer em suas casas morando sozinhas. Esse inclusive era um medo constante: ser obrigada a morar com um dos filhos e perder assim a liberdade. Por conta disso, acompanhei uma senhora que cursou minhas aulas de WhatsApp durante a pesquisa de campo que chegava às aulas cedo pela manhã completamente maqueada, tentando esconder os hematomas de suas quedas dos filhos, prolongando assim sua permanência em sua própria casa.
As chaves também eram dadas aos filhos, principalmente depois de algum evento de risco, normalmente uma queda. E novos limites eram negociados. Às vezes uma segunda tranca para sinalizar o desejo por privacidade – ou intimidade, como era o caso com uma das participantes que recebia pretendentes em sua casa. Apesar de muitos participantes com filhos não terem expectativa com relação a serem cuidados na velhice, muitos recordam com orgulho o fato de terem cuidado de seus pais até o fim da vida – com muitos relatos de mulheres levadas à exaustão e abandonando seus trabalhos para exercer essa função.
Para efeito baba azul, leia: 1) Artigo “The Fine Line Between Care and Surveillance” do curso gratuito “An Anthropology of Smartphones: Communication, Ageing and Health”; 2) Capítulos “Family Gathering” e “Crafting Health” do meu livro “Ageing with Smartphones in Urban Brazil: A work in progress”; 3) Artigo (maravilhoso) de Sarah Lamb sobre demandar cuidado como falha moral: “Interrogating Healthy/ Successful Aging: An Anthropologist’s Lens”; 4) Artigo “Dependence is the new death” no blog do projeto ASSA – Anthropology of Smartphones and SmartAgeing (UCL).
3. “A Senhora Não Precisa Usar Mesmo. A Senhora só tem que Vestir”
Para mim um dos momentos mais emblemáticos do filme foi a imposição de que todas as pessoas idosas vestissem fraldas geriátricas, mesmo aquelas com perfeita autonomia, como Tereza. A bancada interminável de fraldas Plenitud não poderia ser melhor metáfora para o modo como produtos, serviços e políticas tendem a considerar as pessoas idosas como um público homogêneo – e com necessidades muitas vezes reduzidas a necessidades de saúde.
Aqui entra toda a questão dos viéses idadistas de programadores e designers e da necessidade urgente de se cocriar com usuários idosos reais. Uma das participantes da minha pesquisa resumiu “nós não temos só necessidades, nós temos desejos”. Outra reclamou da falta de opções de roupas para sua idade. Outra reclamou que as pessoas falam com ela ou gritando ou com voz de criança ou bem-de-va-gar. Mas a reclamação mais marcante que ouvi foi de um grupo 60+ indignado: empreendedores, eles foram convidados para um evento de economia prateada em uma faculdade e receberam fralda geriátrica de brinde.
Voltando ao filme, tem um outro ponto importante nessa passagem. Tanto a funcionária que distribui a fralda, quanto o recepcionista do ônibus, quanto a própria filha de Tereza acionam de alguma maneira a máxima “para não dar trabalho”. É assim que a agência de cada um é posta em jogo em nome da conveniência para o entorno. É preciso resgatar que entre a autonomia total e a dependência total existe um espectro que tem que comportar ajustes e adequações aos novos limites do sujeito que envelhece. É preciso oferecer alternativas e novas opções para que todas as pessoas possam envelhecer como consumidores e cidadãos.
Para efeito baba azul, leia: 1) Artigo de Vincent Caradec: “Sexagenários e Octogenários diante do envelhecimento do corpo”; 2) Artigo de Bischof e colegas: “Configuring the older adult: How age and ageing are re-configured in gerontechnology design”; 3) Artigo de Asmar e colegas “No one-size-fits-all! Eight profiles of digital inequalities for customized inclusion strategies”; 4) Artigo meu com meu colega Alfonso Otaegui sobre os defeitos da retórica de “não dar trabalho” para a inclusão digital de pessoas idosas: “Dependency as a Burden: Impact of Active Aging for Tech Adoption in Brazil and Chile”.
4. “Sabotar a atividade produtiva nacional é crime grave”
“O Último Azul” é a distopia de um Brasil controlador com forte aparato ideológico para convencimento de que a retirada de pessoas a partir dos 75 anos do convívio da sociedade é medida para manutenção da produtividade das populações mais jovens e desenvolvimento do país. Com os dois pés na realidade, esse enquadramento da velhice não poderia estar mais equivocado.
A dependência da renda das pessoas idosas nos domicílios brasileiros é dantesca e essa renda não vem apenas da aposentadoria, mas de outras atividades remuneradas, inclusive informais, que fazem manutenção da pessoa idosa como arrimo de família. As pessoas idosas estão no grupo que mais faz trabalho voluntário no Brasil. As mulheres idosas estão entre as que mais cuidam: 24 horas semanais dedicadas ao cuidado entre os 60 e 69 anos e 17 horas semanais acima de 80 anos. Pessoas idosas querem se manter produtivas e aprendendo. Só no ENEM desse ano 17.192 pessoas com 60 anos ou mais participaram do exame, um crescimento de 191% desde 2022 – sinal de que as pessoas idosas não querem se retirar, mas se reinserir e participar.
E por que isso é tão importante? O Brasil de Tereza reconhece os velhos como “patrimônio vivo nacional”, mas só para em seguida isolá-los e confiná-los ao esquecimento. Um país sem velhos é um país sem acúmulo de aprendizados. Um país sem velhos é inocente, porque inexperiente. Um país sem velhos é um país sem narrativa, sem lastro, sem sabedoria. E um povo sem memória não tem como reconstruir e refletir sobre o presente. É um povo à deriva.
Para efeito baba azul, leia: 1) “Memória e Sociedade: lembranças de velhos”, de Ecléa Bosi; 2) Nota técnica de Ana Amélia Camarano: “Os dependentes das rendas dos idosos e o coronavírus: órfãos ou novos pobres?”